Pular para o conteúdo principal

Das tripas ao coração



Não gosto de gente. Na verdade não sei o que sentir a respeito, meus sentidos se confundem, arrepia a espinha, um misto de pavor e nojo.

Não sou sociopata, é o que me dizem. Mandam procurar terapia, antecipo o diagnóstico e afirmo, o inferno são os outros.

Não lido bem com sentimentos, demonstrações públicas de afeto. Sentimentos estão intimamente vinculados á fraqueza, a ser vulnerável, não sou fraco, talvez seja.

Meu sarcasmo mascara uma carência de não sei o que, e afasta de mim os estúpidos e pequenos. Não suporto gente burra, pobre, sem educação. Crianças e animais despertam meus instintos homicidas.

Me sinto só, inquieto, buscando encontrar algo que me preencha, satisfaça e congele os dedos. Me sinto só, mas não me sinto mal, dou uma de autossuficiente e chuto o balde, pessoas não são bichos confiáveis, eu não sou.

Não vejo chances de me entregar a uma pessoa só, meu coração é repartido em pedaços, em vão, minha cabeça pensa em conquistar sem atar nenhum tipo de nó. Não finco os pés num amor do tipo portal, eu fujo, eu corro, eu penso.

Não sigo meus instintos, mas bato a cabeça, sou impulsivo, quebro a cara. Dou licença poética, sou ansioso, tenho transtornos do sono, de humor e já nem sei mais quem sou. Se andorinha suicida ou metamorfose ambulante. Sou sonhador, sou pensador, vivo de entrelinhas, conto um conto e ligo os pontos. Mudo num e outro instante, corto raízes e crio azas. Sou instável, volúvel, sincero e desconfiado.

O que dizem de mim já foi.

Estou apaixonado, por uma menina de pele branca, cabelos cor de mel e olhos de esmeralda, que sou incapaz de encarar, nunca fui. E todas as promessas de ser diferente tirar o amor da gente de baixo do colchão foram furadas. Não sou do tipo de bobo que senta e canta sobre as estrelas, não sou do tipo comum, não sou do tipo normal. Sou do tipo que ama, que não importa se é amado, sou do tipo de verdade. Sou do tipo feito de tripas e coração.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Melodrama

We accept the love we think we deserve.
Mas daí acordamos numa manhã ensolarada qualquer - setembro, talvez dezembro, o dia não importa - e antes mesmo de levantar da cama achamos que merecemos mais. 
Em minha mente ecoa um pedido de paz, pode ser tua voz, ou a minha própria. Você fala o que precisa ser dito, com letras bonitas e palavras difíceis. Um soco no estômago a ser sentido em suaves prestações, 48 horas depois.
Pra acordar é preciso estar dormindo.  Quase meio dia e ainda encaro fixamente a porta aberta, é como olhar pra trás, e lembrar da nossa história fadada ao afastamento. Assim como tudo na vida, eventualmente, acaba bem. And I know that I'll be happier. Como na música que eu ousei dizer ser nossa. Parece que não estávamos tão errados.
As lágrimas que escorrem pelo meu rosto hoje não voltarão a te tirar o sono amanhã. E não vamos aqui trabalhar esteriótipos de culpa ou falsas promessas de pra sempre. O sofrimento é cláusula leonina em qualquer caso, sem desculpas, é sob a …

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…

Gatilho

Aí está a história de um homem. Era uma história muito engraçada, não tinha enredo, não tinha nada. Um homem que a única certeza que tinha era as incertezas que o movia, perguntas sem resposta, inseguranças sem razão. E seu maior medo, a falta de certeza, não ter razão. Queria voar sem tirar os pés do chão. Ver além, através. Colher certezas, ouvi-las. Por isso ele andava. Caminhava pelos dias, passeava pelas horas, via o que não se vê, de olhos bem abertos, dizia o que não devia ser dito, sentia o indizível, se acreditava impossível. Tanto quanto impulsivo, expansível, imprevisível. Dava a cara a tapa. A cara, a face, a outra, o corpo, a alma e o coração. De tanto apanhar perdeu o medo. Doer, doía, mas fazia parte. Se atirava em cataratas, enquanto buscava o tédio das águas mansas. Falava de si com a destreza de um bom conhecedor. Falava. Falava quando só precisava ouvir. Buscava. Devoto de Nosso Senhor Jesus Crítico, se dizia too cool, e se morria e se matava a cada novo soluço. Nã…